| Teiú (Tupinambis sp.), um lagarto com grande ocorrência no Brasil |
Os répteis (do latim reptillis,
rastejante), cujos representantes mais conhecidos são lagartos, cobras,
tartarugas, crocodilos e jacarés, formam a classe Reptilla. Os répteis possuem
cinco dedos com unhas e sustentam o corpo de maneira mais eficiente do que os
anfíbios, com movimentos mais elaborados. A pele dos répteis é seca e dura,
revestida por uma densa camada de tecidos queratinizados que a tornam
impermeável.
Essa característica cutânea é uma estratégia
contra a desidratação, que permite aos répteis se adaptarem aos mais variados
ambientes terrestres, como os climas secos dos desertos. Além disso, seus
pulmões são maiores e mais eficientes nas trocas gasosas que os pulmões dos
anfíbios, o que dispensa a pele da função respiratória e contribui para o
sucesso dos repteis em meio terrestre.
Outras aquisições evolutivas fundamentais para a
colonização da terra firme foram referentes à reprodução; nos répteis, a fecundação é
interna e independe de um ambiente aquoso. Nos machos de diversas espécies, há
um órgão copulador que se projeta da cloaca durante a cópula, o que facilita a
fecundação. Porém, a inovação evolutiva mais importante para os répteis foi o
desenvolvimento de um tipo de ovo altamente adaptado ao ambiente terrestre, o ovo
amniótico. Os ovos de répteis são protegidos por uma casca membranosa ou
calcária, e seus embriões desenvolvem estruturas extra-embrionárias (ou anexos
embrionários), que permitem o seu desenvolvimento fora da água.
A classe Reptilla se divide em quatro ordens;
- Squamata
- Chelonia
- Crocodilla
- Rhyncocephalia
A ordem Squamata é a mais diversificada,
abrigando os répteis escamados. Os principais representantes desta ordem são as
serpentes (subordem Ophidia ou Serpentes) e os lagartos (subordem Sauria ou
Lacertilia). A ordem Chelonia ou testudines reúne as tartarugas marinhas,
os cagados, quelônios semiaquáticos que vivem em água doce, e os jabutis, que
vivem exclusivamente em terra firme. A ordem Crocodilla abrange
crocodilos, jacarés e gaviais, um grupo de répteis semiaquaticos que vive
apenas em regiões quentes, banhadas por rios e lagos de água doce; umas poucas
espécies vivem no mar – como o Crocodilo-de-Agua-Salgada, o maior réptil do
mundo. A ordem Rhyncocephalia abriga apenas duas espécies de répteis
encontrados na Nova Zelândia, conhecidos como tuataras. Com relação ao tamanho,
os répteis atuais variam de poucos centímetros, em alguns lagartos, a quase 10
metros, em certas serpentes.
Os répteis, assim como a maioria dos peixes e
anfíbios, são classificados como animais ectotérmicos (do grego ektos,
de fora, e thermo, calor) ou, num linguajar mais vulgar, como “animais de
sangue frio”. Essas denominações são dadas em virtude do padrão de regulação
térmica corporal que estes animais apresentam; os répteis não utilizam
ostensivamente seu metabolismo para regular sua temperatura corporal. Em outras
palavras, eles não são dotados de mecanismos internos para regular sua
temperatura de maneira autônoma, e por isso dependem do calor e das condições
advindas do meio externo.
Como mecanismo de termorregulação, os repteis
desenvolveram adaptações comportamentais (etológicas) associadas a troca de
calor com o ambiente. Assim, podemos observar o padrão ectotérmico analisando o
comportamento de muitos répteis; por exemplo, muitas espécies procuram
manter-se ao sol quando a temperatura do corpo está baixa, visando aumenta-la.
Quando a temperatura corporal se torna muito elevada, vão para locais
sombreados ou para a água, – no caso de jacarés e crocodilos –, visando
baixa-la.
Ao contrário dos répteis, os mamíferos e as aves
são animais endotérmicos, pois utilizam ativamente o calor gerado em seu
próprio metabolismo na manutenção da temperatura corporal. Os animais
endotérmicos despendem uma grande quantidade de energia para regularem sua
temperatura; é por isso que um réptil sobrevive com menos de 10 % das calorias
requeridas por um mamífero ou por uma ave de tamanho correspondente. Por
exemplo, em uma temperatura ambiente de 20°C, uma pessoa em repouso gasta de
1300 a 1800 kcal por dia, enquanto que, nas mesmas condições, um jacaré de peso
equivalente gasta apenas 60 kcal por dia. Desta forma, o baixo custo energético
é uma vantagem da ectotermia em relação a endotermia.
Por outro lado, a vantagem da endotermia sobre a
ectotermia é que a manutenção de uma temperatura corporal elevada pode
sustentar uma atividade física mais intensa e duradoura. É por isso que os
mamíferos e as aves conseguem se manter muito ativos por um período de tempo
bem mais longo que os répteis.
Obs. Os termos pecilotérmico (do grego Poikilos,
variado) e homeotérmico (do grego homoios, constante) não são sinônimos de
éctotermico e endotérmico e, portanto, devem ser evitados. Muitos peixes e
animais marinhos, por exemplo, são ectotérmicos mas vivem em águas cujas
temperaturas médias variam muito pouco, o que torna a temperatura corporal
destes animais mais estável do que muitos seres humanos e outros animais
endotérmicos.
Anatomia e fisiologia dos répteis
Assim como nos outros animais, a pele dos
répteis é constituída por duas camadas de tecido: a derme, mais interna, e a
epiderme, mais externa. A epiderme dos répteis é espessa e altamente
queratinizada, sendo constituída de várias camadas sobrepostas de células
mortas repletas de queratina, uma proteína fibrosa, resistente e
impermeabilizante. A queratinização cutânea dos répteis reflete sua estratégia
de adaptação aos ambientes de terra firme, nos quais a umidade é baixa – em
relação ao meio aquático – e a perda de água deve ser evitada.
A epiderme queratinizada dos répteis forma
placas denominadas escamas córneas. Em alguns casos, essas escamas se
diferenciam em padrões distintos, como nos crocodilos e jacarés, por exemplo,
cujas escamas que recobrem a região ventral são dispostas em fileiras
horizontais, intercaladas com epiderme menos queratinizada – o que facilita a
movimentação do animal –, enquanto as escamas dorsais estão apoiadas sobre
placas dérmicas de natureza óssea. Essas placas ósseas conferem rigidez às
escamas dorsais, dotando o animal de um exoesqueleto que cresce junto com o seu
corpo, sem precisar ser trocado.
Obs. Alguns répteis, como serpentes e lagartos, trocam periodicamente sua camada epidérmica mais externa, a cutícula, para permitir o crescimento. Esse fenômeno se assemelha à troca do exoesqueleto que ocorre em artrópodes.
O esqueleto dos répteis é semelhante ao dos
outros animais tetrápodes, apesar de certos grupos apresentarem grandes
modificações esqueléticas que refletem adaptações a determinados modos de vida.
As serpentes, por exemplo, não têm pernas, e, portanto, não apresentam
esqueleto apendicular. Entretanto, existem evidencias de que os ancestrais das
serpentes modernas apresentavam pernas, que desapareceram ao longo da evolução.
Outro exemplo de diferenciação esquelética que ocorre nos répteis é o caso dos
quelônios (tartarugas, cagados e jabutis), nos quais os ossos das costelas são
fundidos à carapaça óssea.
A estrutura organizacional do crânio e do
esqueleto apendicular dos répteis pode ser considerada mais “avançada” do que a
dos anfíbios, permitindo movimentos mais elaborados e locomoção mais eficiente
no ambiente terrestre.
Sistema digestório e sistema respiratório
Em linhas gerais, o sistema digestório dos
répteis é bastante semelhante ao dos anfíbios, com estomago e intestino bem
diferenciados e alguns órgãos acessórios que auxiliam na digestão dos
alimentos. A maioria dos repteis é carnívora, alimentando-se de diversos tipos
de animais. Algumas espécies de tartarugas, cágados e lagartos são herbívoras.
Com relação ao sistema respiratório, o pulmão
dos répteis é mais desenvolvido que o dos anfíbios, com maior número de dobras
internas que facilitam a troca de gases com o meio. Muitos repteis contam com a
presença de músculos ao redor das costelas, que permitem ao animal abrir e
fechar a caixa torácica, regulando a ventilação pulmonar. A respiração é,
portanto, mais eficiente que a dos anfíbios.
Ademais, algumas espécies de serpente apresentam
apenas um pulmão, fato que provavelmente decorre de uma adaptação do aparelho
respiratório do animal ao seu corpo fino e cilíndrico.
Sistema circulatório e sistema urinário
Os répteis, assim como os anfíbios, as aves e os
mamíferos, apresentam circulação dupla, composta de um circuito pulmonar
(pequena circulação) e um circuito sistêmico (grande circulação). O coração da
maioria dos repteis possui três câmaras: dois átrios (aurículas) e um
ventrículo parcialmente dividido por uma parede interna, o que diminui a
mistura de sangue arterial com o sangue venoso, em comparação com o padrão
circulatório dos anfíbios. Em crocodilos e jacarés, a separação do ventrículo
em duas câmaras é completa, e seu coração apresenta quatro câmaras cardíacas
bem definidas (dois átrios e dois ventrículos).
A
excreção dos repteis é mediada por um par de rins. Em algumas espécies, a urina
é conduzida dos rins por dois ureteres diretamente até a cloaca, de onde é
eliminada do corpo. Em outras espécies, a urina é armazenada temporariamente em
uma bexiga urinaria e só depois é lançada na cloaca e expelida.
A maioria dos repteis excreta seus resíduos de
compostos nitrogenados na forma de ácido úrico, que, além de ser menos
toxico que a amônia dos peixes, é pouco solúvel em água e, por isso, pode ser
eliminada do organismo com economia hídrica. Se esta substancia fosse tão
solúvel quanto a amônia e a ureia, seria necessária uma grande quantidade de
água para elimina-la na urina. A excreção do ácido úrico representa, portanto,
uma adaptação dos répteis ao ambiente de terra firme, onde a economia de água é
importante. Muitos repteis reabsorvem parte da água da urina que passa pela
cloaca. Nestes casos, o ácido úrico se torna tão concentrado que adquire o
aspecto de uma pasta esbranquiçada semi-solida, que é eliminada junto das
fezes.
Além disso, o ácido úrico pode ser armazenado
dentro do ovo até o fim do desenvolvimento embrionário, devido justamente a sua
insolubilidade em água e sua toxicidade reduzida. Assim, a excreção do ácido
úrico também representa uma adaptação ao desenvolvimento embrionário em terra
firme, dentro de um ovo com casca.
Sistema nervoso e sentidos
O sistema nervoso dos répteis é semelhante ao
dos anfíbios. Em geral, a visão é boa e algumas espécies tem aparato olfativo
extremamente bem desenvolvido. As serpentes, por exemplo, têm um órgão olfativo
especial no teto da boca, o órgão de Jacobson, que lhes permitem o
equivalente a “sentir o gosto do ar”.
O comportamento característico de uma serpente,
sempre colocando a língua para fora e para dento da boca, permite ao animal
captar moléculas presentes no ar e leva-las ao órgão de Jacobson, que
identifica as substancias captadas. Processando estas informações químicas, o
animal pode perceber, dentre outras coisas, a presença de presas ou predadores
ao seu redor. As serpentes são surdas e não conseguem ouvir sons que se
propagam pelo ar, mas conseguem perceber vibrações no solo graças a organização
diferenciada dos ossos em seu crânio.
Obs. O órgão de Jacobson, também conhecido como órgão vomeronasal, é uma estrutura olfativa auxiliar presente em vários animais tetrápodes. Cães e gatos têm órgão de Jacobson bem desenvolvido, com a mesma função observada nas serpentes. Este órgão também auxilia na detecção de feromônios presentes no ar, o que é importante para a comunicação química entre os animais.
Reprodução dos répteis
Os repteis são animais dioicos e, em sua
maioria, ovíparos. Os machos apresentam um órgão sexual próprio, o pênis, com o
qual introduzem seus espermatozoides na cloaca da femea durante a copula. A
fecundação é interna e o desenvolvimento é direto, sem estagio larval. Em
algumas espécies de serpentes, lagartos, tartarugas e cagados, as femeas podem
armazenar os espermatozoides do macho em seu corpo por um ano ou mais, até que
eles finalmente fecundem seus ovos. Umas poucas espécies de lagartos são
constituídas apenas por femeas que se reproduzem por partenogênese, processo em
que o ovulo se desenvolve em um indivíduo adulto, sem que ocorra a fecundação.
Entre essas espécies, estão o Dragão-de-Komodo (Varanus komodoensis), endêmico
da Indonésia, e o Lagartinho-de-Linhares (Ameivula nativo), endêmico do Brasil.
Os ovos de tartaruga, das serpentes e da maioria
dos lagartos são cobertos por uma casca flexível com consistência de couro.
Crocodilos, cagados e algumas espécies de lagartos formam ovos rígidos e de
consistência calcárea, como os ovos das aves.
Assim como os ovos das aves, os ovos dos repteis
contem água e alimento suficientes para todo o processo de desenvolvimento
embrionário, não necessitando de aporte externo. Desta forma, o ovo permanece
quase completamente fechado, sendo as trocas do embrião com o ambiente restringidas
às minúsculas moléculas de gases respiratórios (O2 e CO2) que se difundem
livremente através dos envoltórios do ovo.
As tartarugas só saem do mar quando chega a
época reprodutiva. Elas geralmente põem seus ovos em praias, onde nidificam (fazem
ninhos) cavando buracos na areia, ali depositando seus ovos e os cobrindo com uma
camada de areia para que não sejam predados. Ao eclodirem, os filhotes rastejam
em direção ao mar, onde vão permanecer a maior parte de suas vidas.
Anexos embrionários
Assim como aves e mamíferos, o desenvolvimento
embrionário dos répteis é marcado pela presença de estruturas auxiliares
associadas ao corpo do embrião denominadas anexos embrionários.
Um destes anexos é o âmnio, uma bolsa
membranosa repleta de liquido que recobre o embrião e o protege da dissecação
ou eventuais choques mecânicos. Outro anexo embrionário é o saco vitelínico,
uma bolsa membranosa ligada ao intestino do embrião, que envolve os componentes
alimentares da gema do ovo e os digere, transferindo nutrientes para os vasos
sanguíneos do embrião. Outro anexo, denominado alantóide, também é uma
bolsa membranosa ligada ao intestino, mas sua função é armazenar as excretas
produzidas pelo embrião ao longo de seu desenvolvimento. Como dito
anteriormente, o ácido úrico é pouco solúvel e pouco toxico, podendo ser
armazenado no ovo sem prejudicar o embrião.
Por fim, o embrião e todos os anexos
embrionários associados a ele são envolvidos pelo córion, anexo que fica
em contato íntimo com a casca do ovo, possibilitando a troca de gases
respiratórios entre o embrião e o meio externo.
Alguns répteis são ovovivíparos, isto é, as
femeas retém o ovo no interior de seu corpo até a eclosão, dando à luz a
indivíduos jovens. Poucas espécies são vivíparas, nas quais o embrião retira
sua nutrição da circulação sanguínea da mãe, a partir de uma estrutura
semelhante a uma placenta. Nestes casos, as trocas gasosas também são
realizadas entre o embrião e a circulação materna.
O cuidado com a prole é raro entre os répteis;
na maioria das espécies, as femeas abandonam os ovos imediatamente após a
postura – como as tartarugas, que desovam em praias e imediatamente se retiram.
Algumas espécies de serpentes e lagartos protegem seus ovos durante o período
de incubação (postura-eclosão), mas não cuidam dos recém-nascidos. Crocodilos e
jacarés, entretanto, constroem ninhos com plantas em decomposição para fornecer
calor aos ovos. As femeas montam guardas nos ninhos até a eclosão dos ovos,
quando levam os recém nascidos até a água e os protegem durante algum tempo.
Origem evolutiva dos répteis
Os repteis surgiram há mais de 350 milhões de
anos, como resultado da evolução de um grupo de anfíbios primitivos. Nessa
época, eles eram animais relativamente pequenos, com o porte de um lagarto
atual, e se alimentavam de insetos. O fóssil mais antigo de um réptil tem 360
milhões de anos e é de um animal chamado cotilossauro. Do ponto de vista
evolutivo, acredita-se que a tartaruga seja o réptil atual mais semelhante ao
cotilossauro, embora estes animais ancestrais não apresentassem carapaça.
Os repteis recém-chegados competiram com os
anfíbios primitivos e, por serem mais adaptados ao ambiente terrestre,
provavelmente foram os grandes responsáveis pela extinção de muitas espécies de
anfíbios, principalmente dos anfíbios de grande porte que dominavam a terra
firme até então. Mais tarde, linhagens de repteis primitivos se diversificaram
evolutivamente e originaram aves e mamíferos.
Há 245 milhões de anos, após uma onda de
extinção em massa que eliminou a maioria das espécies de seres vivos, os
répteis voltaram a diversificar-se e se tornaram os animais dominantes no
planeta. Durante quase 150 milhões de anos, entre 200 e 65 milhões de anos
atrás, estes animais encontraram seu auge e reinaram sobre todos os outros, num
período que ficou conhecido como idade dos répteis. Existiam desde espécies com
poucos centímetros de comprimento e algumas gramas de peso, até espécies que
atingiam dezenas de metros e pesavam várias toneladas. Viviam em todos os
ambientes, havendo espécies voadoras, dotadas de asas formadas por especializações
nos membros anteriores, e espécies aquáticas, que apresentavam nadadeiras
originadas da transformação adaptacional dos membros anteriores e posteriores.
Os dinossauros foram os répteis primitivos mais
bem sucedidos, com espécies do tamanho de uma galinha, até indivíduos gigantes,
como os tiranossauros, os diplodocos e os estegossauros. A idade dos répteis
terminou há cerca de 65 milhões de anos atrás, com a queda de um asteroide
gigante que ocasionou a extinção da maioria das espécies de seres vivos.
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