Mendel buscou analisar isoladamente a herança de cada um dos sete
caracteres nas plantas de ervilha, encontrando um padrão de constância comum a
todas essas características. Para entendermos a genética mendeliana, precisamos
analisar o passo a passo de seus experimentos e aplicar estatística no
tratamento dos dados, assim como feito por ele. Podemos analisar o passo a
passo da metodologia e os resultados obtidos por ele na investigação da herança
relativa à coloração das ervilhas, por exemplo, e extrair deste experimento os
postulados da primeira lei.
- A
herança da coloração em ervilhas e a primeira lei de Mendel
1. as
variedades puras para a característica cor da semente foram obtidas após várias
rodadas de autofecundação. A geração parental (P) é, portanto, constituída de
indivíduos que originam apenas sementes amarelas e indivíduos que originam
apenas sementes verdes.
2. as duas
variedades puras foram submetidas à fecundação cruzada. Analisando os
descendentes formados após a fecundação, Mendel observou que todas as sementes da
geração F1 eram amarelas, não importando quantas vezes repetisse o processo.
Aparentemente, a característica cor verde tinha sido perdida.
3. no
entanto, com a autofecundação da geração F1, a coloração verde da semente
voltou a aparecer na geração F2, porém, em uma proporção bem menor em relação à
cor amarela. Mendel repetiu várias vezes a autofecundação de F1 e percebeu um
padrão na manifestação da característica em questão: havia uma proporção constante de uma semente verde
para cada três sementes amarelas na geração F2 (proporção 3:1).

Em termos
de porcentagem, a proporção 3:1 significa que 75% da geração F2 é constituída
de sementes amarelas e apenas 25% apresenta coloração verde. Essas proporções
se repetiam para os outros seis caracteres analisados, o que levou Mendel a
concluir que tais resultados não eram casuais, pois sempre se confirmavam do
ponto de vista estatístico. Além disso, Mendel também constatou que, na geração
F1, apenas uma das variedades parentais se manifestava. Já na geração F2, as
duas variedades parentais se manifestavam, mas aquela que não ocorria em F1
reaparecia com menor frequência em F2. Mendel denominou variedade dominante
aquela que se manifestava na geração F1, e variedade recessiva aquela que se
mantinha “escondida” em F1, só reaparecendo na geração F2, em menor número.
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Resultados originais dos
experimentos de Mendel |
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CARÁTER |
GERAÇÃO P |
GERAÇÃO F1 |
GERAÇÃO F2 |
PROPORÇÕES REAIS EM F2 |
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Para
explicar estes resultados, Mendel propôs que cada característica é
determinada por um par de fatores e que, em cada variedade pura da geração
parental, esses fatores são iguais. Considerando o caráter cor da semente e
associando letras para representar os fatores, podemos utilizar a letra R para
designar os fatores dominantes da variedade amarela e r para designar os
fatores recessivos da variedade verde.
Na
formação dos gametas, essa dupla de fatores se separa, indo apenas um fator de
cada par para cada gameta:
·
A variedade amarela pura (RR) produz gametas
com um fator R.
·
A variedade verde pura (rr) produz gametas com
um fator r.
Com a
fecundação cruzada entre dois indivíduos puros, os gametas da geração parental
se misturam e formam os descendentes híbridos da geração F1, que são assim
chamados por possuirem um fator R e outro r. Apesar de os dois fatores estarem
presentes em F1, apenas um se manifesta; o fator da variedade considerada
dominante. Assim, o fator R, responsável pela cor amarela das ervilhas, é
dominante em relação ao fator r, que determina cor verde. Como os fatores se
dividem na formação dos gametas, os indivíduos amarelos, mas essencialmente
híbridos (Rr) da geração F1, produzem gametas R e gametas r em proporções
iguais. Na autofecundação da geração F1, esses gametas se unem ao acaso,
podendo formar quatro tipos de combinações em F2, conforme esquematizado no
quadro abaixo.
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R |
r |
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R |
RR |
Rr |
|
r |
Rr |
rr |
As interpretações
de Mendel sobre as dinâmicas de herança isolada das sete características de ervilha
ao longo das gerações F1 e F2 deram origem à primeira lei de Mendel,
também conhecida como lei do monoibridismo (porque considera a herança de
apenas um caráter por vez), princípio da segregação dos fatores, lei da pureza
dos gametas, lei da disjunção (separação) ou lei fundamental da genética.
De
maneira geral, a primeira lei de Mendel se baseia em três pilares principais:
1.
A existência de um par de fatores na
determinação de uma característica hereditária.
2.
A pureza dos gametas; cada gameta é dotado de
apenas um fator do par.
3.
Os princípios de dominância e recessividade,
que mascaram as características recessivas em F1 e resultam na proporção
estatística de 3:1 em F2.
A
primeira lei de Mendel pode ser enunciada da seguinte forma:
Cada caráter é condicionado por um par
de fatores que se separam na formação dos gametas, indo apenas um dos fatores
do par para cada gameta, que é, portanto, puro.
Obs. as ideias centrais da explicação de Mendel para os
resultados de seus experimentos, baseadas no princípio da segregação dos
fatores e nas relações de dominância e recessividade, podem ser utilizadas para
explicar os padrões de herança observados em todas as sete características da Pisum
sativum, revelando que os resultados seguem um padrão e são universais. A
primeira lei de Mendel pode ser entendida como um apanhado geral de suas
conclusões em relação ao monoibridismo.
Relação
entre meiose e primeira lei
Mendel
publicou seus estudos em 1865, muito antes que os cromossomos pudessem ser
observados, que a meiose gamética fosse descoberta e que os mecanismos por trás
do ciclo de vida das plantas fossem plenamente descritos. Foi somente em 1902
que os pesquisadores Walter Sutton e Theodor Boveri, estudando independentemente
o comportamento dos cromossomos na meiose, perceberam que esse comportamento
seguia os princípios de segregação dos fatores proposto por Mendel. Sutton e
Boveri supuseram, então, que os fatores mendelianos, hoje chamados de genes,
estariam localizados nos cromossomos. Posteriormente, em 1910, Thomas Morgan e
seus colaboradores – ao estudarem padrões de herança na mosca-das-frutas – confirmaram
a hipótese de Sutton-Boveri, conhecida como a teoria cromossômica da herança.
Obs. a teoria cromossômica da herança de Sutton-Boveri
correlaciona os cromossomos, a meiose e a transmissão de características
hereditárias. Resumidamente, ela afirma que genes individuais são encontrados
em locais específicos em cromossomos particulares, e que o comportamento dos
cromossomos durante a meiose pode explicar porque os genes e os caracteres determinados
por eles são herdados de acordo com as leis de Mendel.
Os
cromossomos existem aos pares nas células do corpo de muitos indivíduos, fato
que é chamado de diploidia. A ploidia é o termo utilizado para designar
o conjunto completo (n) de cromossomos de uma determinada célula ou organismo;
células diploides apresentam constituição par de seu conjunto cromossômico,
sendo designadas pela expressão 2n, enquanto células haploides apresentam
apenas um conjunto cromossômico do tipo n.

Em
células diploides, cada par é formado por cromossomos ditos homólogos,
assim chamados por terem o mesmo tamanho, apresentarem centrômeros posicionados
no mesmo lugar, bem como a mesma constituição genética – ou seja, apresentam
genes que determinam as mesmas características. Na meiose, os cromossomos
homólogos se separam, indo apenas um cromossomo de cada par para cada gameta
formado, que é, portanto, haploide (apresenta metade dos cromossomos da célula
original). Cada par de homólogos contem genes para as mesmas características e
na mesma sequência. O lugar que cada gene ocupa no cromossomo é denominado lócus
gênico; desta forma, podemos dizer que os cromossomos homólogos apresentam
lócus gênicos idênticos. Por sua vez, cada gene pode apresentar diferentes
formas ou variantes que se manifestam no organismo. Cada variante de um gene
recebe o nome de alelo, que ocorrem aos pares nas células diploides.
Os alelos
surgem devido a pequenas alterações no lócus de um determinado gene, e se
manifestam de maneira diferente. Assim, se o alelo A tem a informação para a
síntese do polipeptídio A, o alelo a não tem a mesma informação; ele determina
a síntese do polipeptídio a. Essas alterações no lócus gênico são as mutações
genicas, que modificam a sequência de bases nitrogenadas na estrutura do DNA. Nem
toda a mutação é capaz de produzir alterações na expressão genica, pois o
código genético é degenerado, “tolerando” alterações pontuais que não
modifiquem a composição polipeptídica de seu produto proteico. Por outro lado, várias
alterações que modifiquem os produtos finais da expressão genica podem ocorrer
em um determinado gene, originando vários alelos que se manifestam de maneiras
diferentes.
A
segregação dos fatores mendelianos ocorre na meiose I (fase reducional R!), em
que os cromossomos homólogos são separados, levando junto consigo os genes
alelos.
A meiose
é um tipo de divisão celular, em que uma célula diploide origina quatro células
haploides, isto é, com metade no número de cromossomos da célula original. Em
cada espécie de ser vivo o número de cromossomos é constante, falando-se em cariótipos
específicos para cada tipo de organismo. Essa constância no número de
cromossomos se efetiva pois, na formação dos gametas, esse número é reduzido à
metade e, após a união dos gametas, reestabelece-se o número inicial.
O que são
alelos dominantes e alelos recessivos em termos moleculares?
Os alelos
dominantes codificam enzimas metabolicamente ativas, enquanto os alelos recessivos
codificam variedades inativas de enzimas. Assim, se um alelo dominante A
codifica uma enzima ativa A, que catalisa uma determinada reação bioquímica,
seu alelo defeituoso a codifica uma variedade inativa desta enzima, que é
incapaz de catalisar essa reação. Como uma pequena quantidade de enzimas já
basta para suprir bioquimicamente uma rota metabólica, tanto indivíduos AA
quanto indivíduos Aa apresentam o mesmo fenótipo – embora os indivíduos Aa
contem com metade das enzimas ativas A em relação aos indivíduos AA. Já os
homozigotos recessivos aa, por produzirem apenas enzimas inativas, produzirão
um fenótipo diferente para esse caráter; é por isso que os fenótipos recessivos
só se manifestam em homozigotos recessivos.
De certa
forma, podemos dizer que os genes dominantes manifestam fenótipos que refletem
a atividade metabólica, enquanto que os fenótipos manifestados pelos alelos
recessivos refletem a inatividade de certos estágios do metabolismo, e só ficam
aparentes na inexistência de alelos dominantes para o mesmo gene. Contudo, isso
não significa que genes recessivos são maléficos, pois muitas enzimas ativas
codificadas por genes dominantes são responsáveis pelo surgimento de doenças.
Abaixo, a
explicação bioquímica de como os alelos recessivos e dominantes condicionam
seus respectivos fenótipos em relação a textura e a cor das sementes de
ervilhas.
Textura
da semente: o alelo dominante R condiciona a produção de uma enzima que
ajuda a converter monômeros de açúcar em amido na semente de ervilha. O
individuo aa produz uma forma inativa desta enzima. Assim, as moléculas
pequenas de açúcar não são polimerizadas, se acumulando no interior da semente
e gerando osmolaridade elevada; o alto teor de açúcar provoca grande absorção
de água por osmose e a semente assume um aspecto inchado. Entretanto, à medida
que a semente amadurece, ela perde um pouco desta água absorvida, o que dá à
ervilha um aspecto enrugado.
Cor da
semente: os indivíduos que possuem ao menos um alelo V em seu genótipo
produzem uma enzima que sintetiza um pigmento amarelo, que é depositado sobre
as células do endosperma da semente. Indivíduos vv produzem uma forma inativa
desta enzima, o que acarreta na ausência do pigmento amarelo; então, a
coloração verde destas ervilhas – que se deve aos cloroplastos – aparece, assim
como nas demais partes da planta. Em outras palavras, o pigmento amarelo
mascara a coloração verde das ervilhas e sua ausência faz com que as sementes
recessivas sejam verdes.
Obs. monoibridismo é o tipo de herança que está ligada a
apenas uma característica, isto é, a um único par de genes alelos. Em problemas
de monoibridismo, consideramos apenas uma característica para análise. A
primeira lei de Mendel é chamada de lei do monoibridismo pois ela vale para
indivíduos híbridos em relação a apenas uma característica.
Proporções
Mendelianas da primeira lei
Proporção fenotípica: 3:1
Proporção genotípica: 1:2:1
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