As
plantas avasculares, informalmente conhecidas como briófitas, são
distribuídas em três filos de: hepatophyta (hepáticas), antocerophyta (antóceros)
e bryophyta (musgos). Todas as briófitas são plantas herbáceas, isto é,
apresentam pouca ou nenhuma lignina em sua estrutura, o que confere aspecto frágil
e maleável ao corpo da planta, diferente das plantas lenhosas, que apresentam
crescimento secundário e estrutura mais rígida. Ainda que a maioria das plantas avasculares
não seja dotada de tecidos condutores de seiva, é importante ressaltar que
algumas espécies de musgos apresentam tecidos especializados nesta função,
embora tenham organização diferente dos encontrados em plantas vasculares. As
plantas vasculares apresentam tecidos condutores altamente organizados em
sistemas de fluxo coordenado, o que não se observa em plantas avasculares.
As
briófitas são plantas delicadas que vivem geralmente em ambientes sombreados e
úmidos, como em troncos de arvores e em barrancos no interior das matas. As
briófitas são plantas de pequeno porte. A maioria das espécies não ultrapassa 5
cm de altura, embora na Nova Zelândia existam espécies endêmicas que chegam a
atingir 40 cm. As briófitas mais familiares são os musgos (filo
Bryophyta), que formam extensos tapetes verdes sobre a superfície de rochas,
troncos de arvores e barrancos. Algumas espécies de musgos conseguem sobreviver
em locais relativamente secos e expostos ao sol, suportando temperaturas muito
altas durante o dia; outras espécies se adaptaram a temperaturas muito baixas,
sendo as únicas plantas existentes no extremo norte do círculo polar ártico,
onde cobrem áreas extensas.
Os
musgos do gênero Sphagnum formam as turfeiras, um tipo de vegetação de
regiões úmidas e pantanosas que cobre cerca de 1% da superfície dos continentes
– o que coloca estes musgos entre as plantas mais abundantes do planeta. A
turfa é formada majoritariamente pelo acumulo de musgos Sphagnum mortos em
terrenos pantanosos encharcados e pobres em gás oxigênio, o que os protege da
ação de organismos decompositores; consequentemente, os átomos de carbono que
compõem os musgos mortos não retornam ao ambiente na forma de gás carbônico
(CO2). Estima-se em 400 bilhões de toneladas a quantidade de carbono retido em
substancias orgânicas nas turfeiras de todo o mundo.
Como
todas as plantas, as briófitas apresentam alternância de gerações em seu ciclo
de vida. Nelas, o gametófito haploide é a geração mais desenvolvida e
persistente. O esporófito diploide tem tamanho reduzido e sempre se
desenvolve sobre o gametófito, nutrindo-se às custas deste até atingir a
maturidade, quando produz esporos e morre logo em seguida.
» Organização
corporal das briófitas
O
corpo das briófitas é chamado de talo. Em comparação com outras plantas
mais complexas, as células das briófitas são pouco diferenciadas nas várias
partes da planta, apresentando aspecto geralmente semelhante e pequena
especialização para a realização de tarefas especificas. Entre as células mais
especializadas, destacam-se as que revestem a planta, formando a epiderme. Na
maioria das briófitas, as células da epiderme têm vários cloroplastos pequenos
e de formato discoidal, como nas demais plantas. Nos antóceros e em células
apicais de alguns musgos e hepáticas, porém, há apenas um cloroplasto grande no
citoplasma. Essa característica é interpretada como uma evidencia de parentesco
evolutivo entre as briófitas e as algas verdes ancestrais das plantas.
As
células epidérmicas das briófitas secretam, na superfície exposta ao ar,
substancias impermeabilizantes que formam uma fina película protetora contra a
desidratação. Na epiderme dos gametófitos geralmente há poros simples que são
formados por pequenas aberturas entre as células apicais, cujo principal
objetivo é permitir as trocas gasosas entre a planta e o meio. Os esporófitos
de musgos e antoceros são maiores e mais complexos do que os de hepáticas; por
exemplo, eles apresentam estômatos – estruturas epidérmicas formadas por
pares de células especializadas que permitem a regulagem apurada da troca de
gases entre a planta e o ar –, assim como os esporófitos de todas as plantas
vasculares, mas essas estruturas não estão presentes nas hepáticas.
Em
antóceros, o gametófito é uma fina camada de células que cresce
horizontalmente, paralela ao solo, e o esporófito é uma estrutura vertical
bifurcada e com pontas afiladas, que cresce ereto sobre o gametófito. Ao
contrário dos esporófitos de musgos e hepáticas, os esporófitos de antoceros
carecem de uma seta e consiste apenas em um esporângio. Os esporângios liberam
esporos maduros a partir de uma rachadura que começa na ponta do “chifre”. Um
fato interessante é que muitas espécies de antoceros apresentam cavidades
internas em seus gametófitos onde vivem cianobactérias coloniais do gênero
Nostoc. Essas bactérias são fixadoras de nitrogênio atmosférico (N2); elas absorvem
o nitrogênio diretamente do ar e o convertem em compostos nitrogenados que são
utilizados por elas próprias e também pela planta hospedeira. Esse tipo de
relação é um exemplo típico de mutualismo.
Segundo
REECE et. al, essa relação simbiótica contribui para que os antoceros atuem
como organismos colonizadores em certos ambientes – já que o nitrogênio em sua
forma biologicamente assimilável é um recurso escasso no solo:
“Em
geral, os antóceros estão entre as primeiras espécies a colonizarem áreas
abertas com solos úmidos; uma relação simbiótica com cianobactérias fixadoras
de nitrogênio contribui para sua capacidade de fazer isso (o nitrogênio costuma
ser escasso nessas áreas)”. (REECE et. al, 2015, pag. 620)

Assim
como os antoceros, as hepáticas apresentam gametófitos laminares que crescem
paralelamente ao solo e sobre o tronco de arvores, em locais sombreados e
úmidos. A forma do gametófito de muitas hepáticas lembra os lobos do fígado
humano, daí o nome do filo Hepatophyta. Os esporófitos das hepáticas são
pequenas estruturas esféricas que ficam encrustadas em estruturas especiais dos
gametófitos, os gametóforos. Estes lembram pequenos guarda-chuvas perpendiculares
ao gametófito, com bordas de formato liso em plantas masculinas e bordas
recortadas em plantas femininas. Seria necessária uma lupa para ver os
esporófitos de hepáticas, que são minúsculas bolsas na base dos gametoforos.
Obs. gêneros de hepáticas como Marchantia são chamados de
“talosos” em função da estrutura rígida e achatada de seus gametófitos; outras
hepáticas, como as do gênero Pagliochila, são chamadas de “folhosas” porque
seus gametófitos semelhantes a caules contêm muitos apêndices semelhantes a
folhas. Existem muito mais espécies de hepáticas folhosas do que talosas.
Diferente
de hepáticas e antoceros, os gametófitos de musgo crescem eretos,
perpendicularmente ao solo. Eles apresentam um eixo principal chamado de caulóide,
que é assim nomeado por lembrar um caule de uma planta vascular. Do cauloide
partem projeções laminares semelhantes a folhas, os filóides. Diferente
das folhas das plantas vasculares, a organização interna dos filoides é
relativamente simples, com tecidos pouco diferenciados e ausência de vasos
condutores de seiva. Na verdade, os filóides de muitos musgos consistem em
aglomerados celulares com apenas uma célula de espessura, mas em alguns
generos, como Polytrichum (musgo comum), existem filoides mais complexos com
tecidos internos e revestimento cuticular. Os esporófitos de musgos são
filamentos finos que se projetam paralelamente ao gametófito a partir de sua
extremidade livre. Eles apresentam uma dilatação terminal (capsula) responsável
por abrigar a estrutura formadora de esporos (esporângio) e libera-los quando
maduros. Embora verdes e fotossintetizantes quando jovens, os esporófitos se
tornam bronzeados ou vermelho-amarelados quando estão prontos para liberar os
esporos – o que antecede a sua morte.

Os
gametófitos de briófitas fixam-se ao solo, rochas ou troncos de arvores por
meio de estruturas filamentosas ramificadas que lembram raízes, e são, por
isso, chamadas de rizóides. Os rizoides não são compostos por tecidos
verdadeiros, mas sim por células individuais longas e tubulares (como em
hepáticas e antoceros) ou filamentos multicelulares com uma célula de espessura
(como em musgos). Por não contarem com células condutoras, a função primordial
dos rizoides é fixar a planta ao seu substrato e não promover a absorção de água
e nutrientes minerais, como ocorre com as raízes das plantas vasculares. A
absorção ocorre por todo o corpo da planta e a distribuição das substancias
absorvidas se dá por difusão célula a célula. A passagem de substancias entre
as células das briófitas também ocorre mediante o auxílio de pontes
citoplasmáticas que atravessam as paredes celulares de células vizinhas, os
plasmodesmos.
Apesar
de serem consideradas plantas avasculares, certas espécies de musgo apresentam,
na porção central do cauloide, tecidos especializados na condução de água e
nutrientes pelo corpo da planta que se dispõem em relativa organização
funcional; o hadroma e o leptoma. O hadroma localiza-se na região mais
interna do cauloide, sendo consituido por hidróides, células tubulares
alongadas, com paredes transversais finas e altamente permeáveis que se dispõem
em fileiras paralelas ao eixo corporal da planta ao longo de todo o cauloide.
Ao se tornarem maduros, os hidroides morrem e tornam-se ocos, permitindo o deslocamento
de água e nutrientes minerais em seu interior. Neste aspecto o hadroma se
assemelha ao xilema das plantas vasculares, que é constituído por vasos
lenhosos de células mortas e ocas, especializadas na condução de seiva bruta (água
e sais).
O
leptoma situa-se mais externamente no cauloide, ao redor do hadroma,
sendo constituído por leptóides; células que perdem o núcleo quando
atingem a maturidade, mantendo o citoplasma. Os leptoides também se dispõem em
fileiras paralelas ao longo do cauloide, mantendo-se unidas por plasmodesmos.
Os leptoides formam um cilindro circular e continuo ao redor do feixe de
hidroides, especializado no transporte de substancias orgânicas – produzidas
através da fotossíntese – por todo o corpo da planta. Tanto em estrutura quanto
em função o leptoma é semelhante ao floema das plantas vasculares, que conduz
seiva elaborada (solução de substancias orgânicas) pelo corpo da planta.

O
sistema formado por hadroma e leptoma se assemelha ao encontrado em fosseis de
plantas primitivas extintas conhecidas como protraqueofitas. Essas plantas são
consideradas um elo evolutivo entre as plantas avasculares e as plantas
vasculares (traqueófitas).
» Reprodução
e ciclo de vida das briófitas
Reprodução assexuada
Muitas
briófitas se reproduzem assexuadamente por meio da fragmentação, processo em
que fragmentos de um indivíduo ou colônia se desprendem do corpo principal e se
desenvolvem em novos gametófitos. Gametófitos de hepáticas e antóceros, por
exemplo, crescem horizontalmente pela expansão das bordas de seu corpo taloso,
que eventualmente pode se partir, gerando fragmentos que, por sua vez, geram
novos indivíduos.
Hepáticas
do gênero Marchantia produzem pequenas gemas especializadas na reprodução
assexuada, denominadas propágulos, que se formam no interior dos conceptáculos,
estruturas em forma de taça projetadas a partir da face superior do talo
gametofítico. Quando os conceptáculos se enchem de água, os propágulos se
desprendem da planta mãe e transbordam para fora dela, desenvolvendo-se e
originando assexuadamente novos indivíduos.
Reprodução sexuada
A
maioria das briófitas é dioica ou unissexual; existem dois tipos de plantas, um
com estruturas reprodutoras apenas masculinas (anterídios) e outro com
estruturas com estruturas reprodutoras apenas femininas (arquegônios). Algumas
espécies são monoicas ou bissexuais, isto é, a mesma planta apresenta
estruturas reprodutoras masculinas e femininas.
O
órgão reprodutor masculino, denominado anterídio, é formado a partir de um
conjunto de células que se dividem intensamente, dando origem a uma estrutura
em forma de saco, que consiste em uma camada de células férteis (células
formadoras de gametas) envoltas por uma camada de células estéreis (que não
originam gametas). As células férteis se dividem e originam os gametas
masculinos, denominados anterozoides. Os anterozoides das briófitas
são dotados de dois flagelos, cujo batimento lhes permite nadar e atingir
os gametas femininos, fecundando-os. Essas plantas dependem, portanto, de água
em estado líquido para que possam se reproduzir sexuadamente.
A
estrutura reprodutiva feminina, chamada de arquegônio, consiste em um
conjunto de células que se diferenciam em um órgão com forma de vaso, de
pescoço fino e alongado. Na porção basal e mais dilatada do arquegônio, uma
única célula cresce e se diferencia no gameta feminino, a oosfera.
Quando esta amadurece, as células da porção central do pescoço do arquegônio se
desintegram e originam um fluido que permite ao anterozoide nadar até o gameta
feminino. Os anterozoides são atraídos para a oosfera por certas substancias
químicas que ela libera quando madura.
Em
geral, os anterozoides biflagelados das briófitas necessitam de uma fina
película de água para se deslocarem com sucesso até a oosfera. Isso gera duas
implicações importantes, que afetam diretamente a distribuição geográfica e o
ciclo de vida das briófitas; (1) em razão da necessidade de um ambiente aquoso,
é provável que encontremos populações de briófitas mais concentradas em
ambientes úmidos e sombreados do que em ambientes secos e quentes; (2) o fato de
o espermatozoide se deslocar pela agua para alcançar a oosfera também significa
que, em espécies dioicas (como ocorre na maioria das briófitas), a reprodução
sexuada tem mais probabilidade de sucesso quando os indivíduos estão
localizados próximos um do outro.
Ao
atingir a oosfera, o anterozoide funde-se a ela pelo processo de fecundação
e os seus materiais genéticos haploides se juntam, originando um zigoto
diploide. O zigoto se multiplica por sucessivas mitoses, gerando um aglomerado
celular maciço no interior do arquegônio, o embrião. O embrião recebe
substancias nutritivas – como açúcares, aminoácidos e sais minerais – da
planta-mãe, processo conhecido como matrotrofia (do grego matros,
materno, e trophos, alimentação). A passagem de nutrientes do corpo materno
para o embrião é mediada por células especializadas na base do arquegônio. Essas
células de transferência placentária têm inúmeras invaginações de
membrana plasmática e parede celular que aumentam consideravelmente a
superfície de contato dos fluidos maternos com o embrião em desenvolvimento.
Esse conjunto de células, responsável pela transferência ativa de substancias da
planta-mãe para o embrião, é chamado de placenta, por analogia ao órgão
presente no desenvolvimento embrionário de certos animais e que desempenha
função semelhante.
Durante
o desenvolvimento do embrião, o arquegônio cresce e passa a ser chamado de caliptra
(do grego kalyptra, cobertura para a cabeça). Após algum tempo, o jovem
esporófito diploide emerge da caliptra, mas sua base continua recebendo
nutrientes maternos através da placenta. Na maioria das briófitas, o esporófito
maduro é formado por três partes: o pé, porção mergulhada no arquegônio
em contato com a placenta; a seta ou pedúnculo, a haste fina que
emerge da caliptra; e a capsula, que contém o esporângio e fica
localizada na extremidade livre do pedúnculo.
“As
briófitas têm os menores esporófitos de todos os grupos de plantas existentes,
fato coerente com a hipótese de que esporófitos maiores só evoluíram mais tarde,
nas plantas vasculares. Um esporófito de briófita típico consiste em um pé, uma
seta e um esporângio. Inserido no arquegônio, o pé absorve nutrientes do
gametófito. A seta, ou haste, conduz esses materiais ao esporângio, também
chamado de cápsula, que os utiliza para produzir esporos por meiose”. (REECE
et. al, 2015, pag. 621)
As
células no interior do esporângio, denominadas esporócitos ou células-mãe
de esporos, dividem-se por meiose, produzindo células haploides; cada uma
destas células se diferencia em um esporo. Um único esporângio de briófita pode
ser capaz de produzir cerca de 50 milhões de esporos, cada qual capaz de gerar
um novo gametófito, se estiver em um local onde as condições são adequadas para
a germinação. Apesar de não apresentarem nenhuma diferenciação morfológica, os
esporos produzidos pelas briófitas dioicas são de dois tipos; um tipo origina
gametófitos masculinos e o outro origina gametófitos femininos. Essa
diferenciação sexual é semelhante a que ocorre em nossa espécie, sendo
controlada por um par de cromossomos X e Y. Os esporos que recebem o cromossomo
X ao final da meiose se desenvolvem em gametófitos femininos, enquanto aqueles
que receberam o cromossomo Y se desenvolvem em gametófitos masculinos.
Em
algumas briófitas, a capsula dos esporófitos conta com um anel de estruturas
dentadas interconectadas, conhecido como peristômio. Esses “dentes” circundam
a abertura da capsula, regulando a liberação de esporos; o peristômio se abre sob
condições secas e fecham-se novamente quando está úmido. Isso permite aos
esporos de musgos serem descarregados gradualmente e em momentos oportunos,
durante rajadas periódicas de vento que podem transporta-los a longas
distancias.
Após
ser liberado do esporângio, o esporo germina assim que encontrar um meio com
condições favoráveis para tal, dividindo-se intensamente por sucessivas mitoses
até formar um novo gametófito que reinicia o ciclo de vida da planta. Nos
antóceros e na maioria das hepáticas, os esporos desenvolvem-se diretamente em
um gametófito. Na maioria das espécies de musgos e em algumas hepáticas, o
esporo primeiramente origina uma fina estrutura com aparência filamentosa e
ramificada, conhecida como protonema, a partir do qual se formam
inúmeras “gemas” que darão origem a estruturas produtoras de gametas (gametóforos).
“A
germinação de esporos de musgo, por exemplo, produz caracteristicamente uma
massa verde ramificada de filamentos de uma célula de espessura conhecida como
protonema. A grande área de superfície do protonema aumenta sua absorção de
água e minerais. Em condições favoráveis, um protonema produz uma ou mais
“gemas”. (Observe que quando nos referimos a plantas avasculares, muitas vezes
usamos aspas para estruturas similares a gemas, caules e folhas de órgãos de
plantas vasculares.) Cada um desses órgãos semelhantes a gemas tem um meristema
apical que origina uma estrutura produtora de gametas conhecida como um gametóforo.
Juntos, um protonema e um ou mais gametóforos constituem o corpo do gametófito
de um musgo”. (REECE et. al, 2015, pag. 618)

Em
geral, os gametófitos de briófitas formam extensos tapetes rentes ao solo em
parte porque seus tecidos são muito delgados para sustentar uma planta alta,
com estrutura robusta. Um segundo motivo para o pequeno porte das briófitas é a
ausência de sistema vascular, o qual proporciona o transporte de água e
nutrientes por longas distancias e contra a gravidade. Desta forma, os tecidos
delgados das briófitas são a razão pela qual este grupo de plantas carece de
sistema vascular; a fina estrutura de seus órgãos garante um eficiente transporte
de substancias por difusão ao longo de todo o corpo da planta, sem a
necessidade de um sistema vascular elaborado. Por sua vez, a ausência de
sistema vascular é o principal fator que limita a altura das briófitas; sem
vasos complexos e extensos, as plantas não conseguem transportar seiva por
distancias relativamente longas.
“Entretanto,
alguns musgos têm tecidos condutores no centro de seus “caules”. Por isso,
alguns desses musgos crescem até 2 m de altura. Análises filogenéticas sugerem
que nessas e em outras briófitas tecidos condutores similares àqueles de
plantas vasculares surgiram independentemente por convergência evolutiva”.
(REECE et. al, 2015, pag. 618)
Os
biólogos consideram o aparecimento da placenta e da matrotrofia como novidades
importantes na evolução dos organismos vegetais, que conferiram grande vantagem
adaptativa aos ancestrais das plantas. Ao abrigar e nutrir o jovem esporófito diploide
em desenvolvimento, o gametófito garante suprimento alimentar ao esporófito,
impede que ele sofra com as agressões do meio e aumenta a sua chance de
sobrevivência. Ao atingir a maturidade, o esporófito produz esporos por meiose,
o que leva a mistura dos conjuntos de genes originalmente provenientes do
gameta masculino e do gameta feminino. A diversidade genética decorrente da
meiose espórica garante maior chance de sobrevivência e adaptação à prole.
Desta forma, garantir a sobrevivência de um esporófito diploide, que produz
propágulos variados do ponto de vista genético, parece ter sido uma importante
aquisição para o sucesso evolutivo das plantas.
Obs. a meiose, por repartir o genoma de uma determinada célula
e distribuir as duas metades de maneira aleatória para as células filhas, garante
que os conjuntos cromossômicos provenientes dos progenitores sejam arranjados
em muitas combinações possíveis, criando células variadas do ponto de vista
genético. Tal variabilidade não pode ser efetivada pelo processo mitótico, no
qual uma célula (diploide ou haploide) se divide em duas células filhas idênticas.
A meiose e a fecundação são dois processos complementares que constituem um
importante mecanismo gerador de diversidade no mundo vivo.
Ciclo de vida de um
musgo
A
maioria dos musgos tem sexos separados (dioicos), isto é, formam gametófitos
masculinos e gametófitos femininos. Espécies do gênero polytrichum são comuns
em superfícies de barrancos e rochas, e seus gametófitos medem cerca de 5 cm de
altura. Ao atingirem a maturidade, os gametófitos de Polytrichum formam uma
taça de filoides na porção terminal livre (ápice) do talo da planta, na qual se
diferenciam as estruturas reprodutivas; anterídios nas plantas masculinas e
arquegônios nas plantas femininas. Quando ocorre chuva ou garoa, a água se
acumula nas taças foliosas dos ápices das plantas masculinas, estimulando os
anterídios a liberarem seus anterozoides. Respingos líquidos que atingem as
taças masculinas esborrifam água, carregando anterozoides para musgos femininos
próximos. Atraídos por sinais químicos emitidos pelo órgão feminino, os
anterozoides nadam até os arquegônios e um deles fecunda uma oosfera,
originando um zigoto diploide que se desenvolve em um esporófito.
O
esporófito maduro apresenta, em sua extremidade livre, uma capsula contendo o
esporângio, no interior do qual as células férteis diploides se dividem por
meiose, produzindo esporos haploides. Estes se libertam das capsula e são
carregados pelo vento, espalhando-se pelo ambiente. Ao encontrar condições
adequadas, cada esporo germina em um protonema ramificado, que se desenvolverá
em novos gametófitos. Os gametófitos, ao atingirem a maturidade, formarão
anterídios ou arquegônios, reiniciando o ciclo.

Ciclo de vida de uma
hepática
Hepáticas
como as do gênero Marchantia vivem em margem de riachos, no solo e sobre tronco
de arvores caídas em florestas úmidas. Assim, como os musgos, elas geralmente
têm sexos separados e seus gametófitos laminares crescem horizontalmente,
paralelos ao substrato. Ao atingirem a maturidade, os gametófitos de Marchantia
formam estruturas reprodutivas em forma de guarda-chuva, genericamente chamadas
de gametóforos, onde se diferenciam os gametângios (arquegônios e
anterídios). Os gametóforos masculinos, chamados de anteridióforos, tem
a borda continua, e os anterídios se formam em sua face superior. Os
arquegônios, por sua vez, se formam na face inferior dos gametóforos
femininos, os arquegonióforos, cujas bordas terminais são tipicamente
recortadas.
Obs. gametóforo é a denominação genérica dada a qualquer
estrutura vegetal modificada na qual se formam os gametângios.
A
fecundação em hepáticas ocorre de maneira semelhante à observada em musgos;
água da chuva ou garoa atingem os gametóforos masculinos e os respingos
carregando anterídios esborrifam em gametóforos femininos de plantas próximas.
Estimulados por sinais químicos, os anterozoides nadam até os arquegônios
localizados na face inferior da extremidade do arquegonióforo, onde um
anterídio acaba fecundando uma oosfera e originando um zigoto diploide. Este
desenvolve-se em um esporófito pequeno e arredondado.
Os
esporófitos maduros, constituídos por um pequeno pé, uma haste pouco
desenvolvida e uma capsula de tamanho avantajado, se assemelham a minúsculas
bolsas que pendem da face inferior do gametóforo feminino. No interior da
capsula há o esporângio, com células férteis que se dividem por meiose,
produzindo esporos haploides. Ao serem liberados da capsula, os esporos se
disseminam pelo ar e, se encontrarem condições adequadas de iluminação e
umidade, germinam em novos gametófitos laminares. Ao atingirem a maturidade,
estes gametófitos originam gametóforos sexuais, nos quais se formarão
anterídios ou arquegônios, reiniciando o ciclo.

» Importância
ecológica e econômica dos musgos
A
dispersão dos esporos leves pelo vento contrubuiu para que os musgos se
espalhassem por praticamente todos os habitats do mundo, sendo particularmente
comuns e variados em florestas e áreas umidas. Entretanto, existem musgos com
as mais variadas adaptações químicas e fisiológicas, que possibilitam a vida em
locais pouco convidativos. Algumas espécies, por exemplo, colonizam regiões com
solo arenoso e descoberto (exposto ao sol e aos eventos climaticos), onde os
pesquisadores descobriram que eles ajudam a reter o nitrogênio no solo –
importante recurso para os seres vivos, que é relativamente escasso nos
ambientes de terra firme. Esses musgos reduzem a perda de nitrogênio do ecossistema
por amenizarem o processo de lixiviação.

Em
florestas de coníferas setentrionais (no hemisfério norte), musgos plumosos do
gênero Pleurozium efetivam relações simbióticas com cianobactérias fixadoras de
nitrogênio que aumentam a disponibilidade deste importante recurso no
ecossistema. Neste caso, os musgos são importantes para a entrada de nitrogênio
no ecossistema.
Outros
musgos conseguem viver em ambientes extremos, como no topo de montanhas, em tundras
ou desertos. Muitas espécies habitam regiões muito frias ou secas, pois
apresentam adaptações que os permitem sobreviver a perda da maior parte da água
de seu corpo, e, então, se reidratar quando a umidade estiver disponível;
poucas plantas vasculares conseguem sobreviver ao mesmo grau de dessecação.
Além disso, compostos fenólicos presentes nas paredes celulares de certos
musgos absorvem níveis prejudiciais de radiação UV que atingem a superfície do
solo em desertos ou em altitudes elevadas.
Obs. essas características adaptativas evidenciam o papel
central que os musgos tem no processo de sucessão ecológica. Assim como os
liquens, muitas espécies de musgo são pouco exigentes e são capazes de
colonizar ambientes praticamente desertos, abrindo espaço para novos organismos,
mais exigentes e complexos.
Como
visto anteriormente, o gênero de musgo Sphagnum habita áreas húmidas em todo o
planeta, sendo o principal constituinte de depósitos de material orgânico
parcialmente digerido conhecido como turfa. Regiões pantanosas com espessas
camadas de turfa são chamadas de turfeiras. Os musgos Sphagnum não se decompõem
completamente em parte devido à presença de compostos fenólicos na parede
celular de suas células. Ademais, graças a sua incrível capacidade de absorver água
– as células de Sphagnum absorvem cerca de 20 vezes o seu peso em água – e de
diminuir o pH do meio, estes e outros musgos de turfeiras criam ambientes
encharcados e ácidos. Como consequência do encharcamento, a diluição do oxigênio
é dificultada nestas zonas. A baixa temperatura relativa, o pH ácido e o baixo
nível de oxigênio das turfeiras dificulta a atividade de organismos
decompositores, inibindo a decomposição de Sphagnum e de outros organismos
mortos nessas áreas úmidas.
Graças
às suas propriedades, as turfas tem grande importância econômica:
“A
turfa foi por muito tempo uma fonte de combustível na Europa e na Ásia, e hoje
ainda é extraída para combustível,
especialmente na Irlanda e no Canadá. O musgo de turfa é útil também como
condicionador de solo e para embalar as raízes de plantas durante o transporte,
uma vez que tem grandes células mortas capazes de absorver até 20 vezes o seu
peso em água”. (REECE et. al, 2015, pag. 622)
Um
acontecimento interessante envolvendo Sphagnum foi a sua utilização durante a
primeira guerra mundial como matéria prima para a fabricação de bandagens.
Entre as vantagens do uso do Sphagnum para esta finalidade, estão a capacidade
absortiva do musgo, cerca de duas vezes maior do que a das fibras de algodão, e
a sua propriedade antisséptica, que decorre da secreção de substancias que
diminuem o pH do meio, dificultando a proliferação de bactérias – até então, as
infecções eram um problema grave e recorrente entre os soldados feridos. Assim,
pode-se dizer que um musgo foi o responsável direto por salvar vidas durante os
conflitos da primeira guerra.
As
turfeiras cobrem cerca de 3% da superfície continental terrestre e contem cerca
de 30% de todo o carbono do solo mundial. Estima-se que, globalmente, por volta
de 450 milhões de toneladas de carbono estejam armazenadas como turfa. A partir
desta perspectiva, as turfeiras são verdadeiros reservatórios de carbono inerte
que não é decomposto e, portanto, não retorna à atmosfera como CO2. Esses
reservatórios naturais contribuem enormemente para a estabilização das
concentrações atmosféricas de gás carbônico.
A
super-exploração comercial do Sphagnum – inicialmente para uso em centrais
elétricas – pode inverter os efeitos ecológicos benéficos das turfas,
contribuindo para o aumento do aquecimento global pela liberação repentina do
carbono armazenado nas turfeiras. Além disso, se as temperaturas globais
continuarem a subir, acredita-se que os níveis de água que encharcam as
turfeiras também sofram redução. Essa redução exporia a matéria orgânica das
turfas ao oxigênio do ar atmosférico, causando sua decomposição repentina e
liberando grandes quantidades de CO2 que, por sua vez, contribuiria para o
aumento do aquecimento global. Esse panorama retroalimentar do aquecimento
global envolvendo Sphagnum alarma especialistas do mundo inteiro, evidenciando
a necessidade da preservação e de um manejo consciente das turfeiras.
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